[...] Para ser digno do homem, isto é do homem visto como projeto, o trabalho intelectual e educacional tem que ser fundado no futuro. É dessa forma que os professores podem tornar-se intelectuais: olhando o futuro. E para isto é preciso propor tal visão em cada uma das disciplinas, mas não numa pretensa disciplina específica do futuro, como agora estão propondo uma disciplina chamada “educação ambiental”... Não é criando uma disciplina que alcançaremos essa meta, mas levando como ponto de partida, em todas as disciplinas, essa idéia de que nada existe para durar eternamente, de que tudo é movimento e de que o futuro não é um só. O que é um só é o presente, ainda que, nas interpretações, seja vário. Mas, o futuro é, por definição e a priori, vário. Sem essa atitude, seremos levados a um pensamento calculante, à matematização das idéias fundada na primazia da técnica, conduzindo a instrumentalismos e reducionismos, em vez de abrangências.
E nada é mais perigoso para cada um de nós, no trabalho de educadores, que as diversas formas de instrumentalização: a instrumentalização pelo mercado, a instrumentalização pelas militâncias, a instrumentalização pela “politicaria”, intrumentalização pelo público, a instrumentalização pela mídia, instrumentalização pela carreira.
O mercado instrumentaliza a partir de lógicas externas à pessoas humana. As militâncias instrumentalizam pela prisão dos slogans e das palavras de ordem. A “politicaria” instrumentaliza pela centralidade dos resultados, o império dos meios. A mídia instrumentaliza convocando o intelectual a produzir manchetes e não verdade, levando-nos a todo custo a ser fáceis e conduzindo-nos à vontade de ser vistos como artistas de vaudeville, e não ouvidos naquilo que de sério tenhamos a dizer. Daí os enormes riscos da televisão no trabalho intelectual.
Todos desejamos que o nosso trabalho seja reconhecido: isso faz parte da essência do nosso trabalho, essa vontade e essa necessidade de reconhecimento. Mas, cada vez que nos dobramos a essas diferentes formas de instrumentalização, aí já não somos intelectuais, porque para ser fácil a todo o custo, aplaudido a todo custo, e para ter o apoio, a todo o custo, de colegas e correligionários, freqüentemente atrasamos a chegada à meta desejada, abandonamos a linha reta da nossa, deixamos de ser sérios.
O intelectual é aquele que resiste, e para resistir tem que ser só. É a solidão a grande arma com a qual podem continuar sendo intelectuais. Cada vez que dizemos "nós", afastamo-nos do ideal do intelectual, porque estamos manifestando a necessidade do aplauso ou da cooptação. O intelectual não é aquele que busca aplauso, mas o que busca a verdade e que fica com ela, a despeito do que sejam, naquele momento, as preferências dos seus contemporâneos.
É fácil entender porque, no fim do século XX, quando a maior parte do trabalho humano se tornou trabalho intelectual, estreita-se a possibilidade de ser intelectual. Por isso, as faculdades e as casas de ensino abrigam cada vez mais letrados e cada vez menos intelectuais. Ser professor não é obrigatoriamente ser intelectual, sobretudo, porque é, freqüentemente, exercer uma repetição, seja como um porta-voz da produção alheia, seja através de uma forma repetitiva de produzir. A globalização agrava essa situação porque traz como uma de suas marcas a difusão de um pequeno número de autores bafejados pelo mercado, e que se instalam no mundo como os atores centrais, e dos quais vem a certificação de validade do conhecimento dos outros. Segundo tais parâmetros, nossa produção intelectual é considerada menos vigorosa, menos forte, menos capaz, menos significativa que a produção de fora, chamada equivocadamente de internacional, quando ela é apenas estrangeira. Estou me referindo às formas como a carreira se organiza neste país, levando-a a tornar-se, ao fim e ao cabo, uma grande inimiga da produção intelectual. Devemos, urgentemente, erguer nossa voz, para reclamar das autoridades universitárias que, entre outros problemas atuais, revejam a questão da carreira, dentro de um quadro mais geral, mais abrangente, agindo como intelectuais, e não como administradores.
Numa universidade autêntica, os administradores apenas governam as coisas. Os intelectuais são inadministráveis. Por isso, eles são o fermento de uma verdadeira vida acadêmica, porque são movidos pela idéia de universidade e pela fidelidade a uma dada universidade. Não há universidade que possa crescer sem crítica interna. Não basta repudiar a crítica externa. É preciso todos os dias exercitar a crítica interna para sermos verdadeiros intelectuais. De outro modo, estaremos limitados à produção e a prática de meias-verdades, ou de verdades interesseiras, que conduzem à teorias utilitárias e ao império das razões utilitaristas fundadas nas exigências do mercado. Daí, a tendência a transformar todo tipo de ensino em ensino profissionalizante. Quantos de nós, ensinando na pós-graduação, já não ouviu esta frase: "professor, eu não vou ao seu curso, porque o seu curso não interessa à tese que eu estou escrevendo". É exatamente o utilitarismo levado às últimas conseqüências. Com certo ceticismo, pode-se até sorrir, ouvindo isso; e com certo cinismo, pode-se até sorrir complacentemente, quando se precisa do voto do estudante para ser eleito para alguma coisa. Só que esta forma de conivência já é uma demonstração da renúncia a ser intelectual. Continua-se sendo professor, mas se renuncia a ser intelectual. Quando renunciamos à crítica deixamos também, que, dentro de nós, produza-se o assassinato de um cidadão. Este, dotado de existência política, somente pode sê-lo plenamente, ao entender criticamente o mundo em torno. Se assim não entendo o mundo em torno, tampouco sei quem sou, nem posso propor outro mundo, e passo a aceitar comodamente tudo que me mandam fazer. É assim que se criam homens instruídos, mas não educados, desinteressados de qualquer discussão mais profunda, subordinados ao pensamento técnico e à lógica dos instrumentos. mantendo uma fé cega nos ritos já dados, nos caminhos preestabelecidos. [...]
Autor: Milton Santos
Fonte: www.fecap.br/PortalInstitucional/extensao/artigoteca/Art_016.pdf
E nada é mais perigoso para cada um de nós, no trabalho de educadores, que as diversas formas de instrumentalização: a instrumentalização pelo mercado, a instrumentalização pelas militâncias, a instrumentalização pela “politicaria”, intrumentalização pelo público, a instrumentalização pela mídia, instrumentalização pela carreira.
O mercado instrumentaliza a partir de lógicas externas à pessoas humana. As militâncias instrumentalizam pela prisão dos slogans e das palavras de ordem. A “politicaria” instrumentaliza pela centralidade dos resultados, o império dos meios. A mídia instrumentaliza convocando o intelectual a produzir manchetes e não verdade, levando-nos a todo custo a ser fáceis e conduzindo-nos à vontade de ser vistos como artistas de vaudeville, e não ouvidos naquilo que de sério tenhamos a dizer. Daí os enormes riscos da televisão no trabalho intelectual.
Todos desejamos que o nosso trabalho seja reconhecido: isso faz parte da essência do nosso trabalho, essa vontade e essa necessidade de reconhecimento. Mas, cada vez que nos dobramos a essas diferentes formas de instrumentalização, aí já não somos intelectuais, porque para ser fácil a todo o custo, aplaudido a todo custo, e para ter o apoio, a todo o custo, de colegas e correligionários, freqüentemente atrasamos a chegada à meta desejada, abandonamos a linha reta da nossa, deixamos de ser sérios.
O intelectual é aquele que resiste, e para resistir tem que ser só. É a solidão a grande arma com a qual podem continuar sendo intelectuais. Cada vez que dizemos "nós", afastamo-nos do ideal do intelectual, porque estamos manifestando a necessidade do aplauso ou da cooptação. O intelectual não é aquele que busca aplauso, mas o que busca a verdade e que fica com ela, a despeito do que sejam, naquele momento, as preferências dos seus contemporâneos.
É fácil entender porque, no fim do século XX, quando a maior parte do trabalho humano se tornou trabalho intelectual, estreita-se a possibilidade de ser intelectual. Por isso, as faculdades e as casas de ensino abrigam cada vez mais letrados e cada vez menos intelectuais. Ser professor não é obrigatoriamente ser intelectual, sobretudo, porque é, freqüentemente, exercer uma repetição, seja como um porta-voz da produção alheia, seja através de uma forma repetitiva de produzir. A globalização agrava essa situação porque traz como uma de suas marcas a difusão de um pequeno número de autores bafejados pelo mercado, e que se instalam no mundo como os atores centrais, e dos quais vem a certificação de validade do conhecimento dos outros. Segundo tais parâmetros, nossa produção intelectual é considerada menos vigorosa, menos forte, menos capaz, menos significativa que a produção de fora, chamada equivocadamente de internacional, quando ela é apenas estrangeira. Estou me referindo às formas como a carreira se organiza neste país, levando-a a tornar-se, ao fim e ao cabo, uma grande inimiga da produção intelectual. Devemos, urgentemente, erguer nossa voz, para reclamar das autoridades universitárias que, entre outros problemas atuais, revejam a questão da carreira, dentro de um quadro mais geral, mais abrangente, agindo como intelectuais, e não como administradores.
Numa universidade autêntica, os administradores apenas governam as coisas. Os intelectuais são inadministráveis. Por isso, eles são o fermento de uma verdadeira vida acadêmica, porque são movidos pela idéia de universidade e pela fidelidade a uma dada universidade. Não há universidade que possa crescer sem crítica interna. Não basta repudiar a crítica externa. É preciso todos os dias exercitar a crítica interna para sermos verdadeiros intelectuais. De outro modo, estaremos limitados à produção e a prática de meias-verdades, ou de verdades interesseiras, que conduzem à teorias utilitárias e ao império das razões utilitaristas fundadas nas exigências do mercado. Daí, a tendência a transformar todo tipo de ensino em ensino profissionalizante. Quantos de nós, ensinando na pós-graduação, já não ouviu esta frase: "professor, eu não vou ao seu curso, porque o seu curso não interessa à tese que eu estou escrevendo". É exatamente o utilitarismo levado às últimas conseqüências. Com certo ceticismo, pode-se até sorrir, ouvindo isso; e com certo cinismo, pode-se até sorrir complacentemente, quando se precisa do voto do estudante para ser eleito para alguma coisa. Só que esta forma de conivência já é uma demonstração da renúncia a ser intelectual. Continua-se sendo professor, mas se renuncia a ser intelectual. Quando renunciamos à crítica deixamos também, que, dentro de nós, produza-se o assassinato de um cidadão. Este, dotado de existência política, somente pode sê-lo plenamente, ao entender criticamente o mundo em torno. Se assim não entendo o mundo em torno, tampouco sei quem sou, nem posso propor outro mundo, e passo a aceitar comodamente tudo que me mandam fazer. É assim que se criam homens instruídos, mas não educados, desinteressados de qualquer discussão mais profunda, subordinados ao pensamento técnico e à lógica dos instrumentos. mantendo uma fé cega nos ritos já dados, nos caminhos preestabelecidos. [...]
Autor: Milton Santos
Fonte: www.fecap.br/PortalInstitucional/extensao/artigoteca/Art_016.pdf
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